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sábado, 17 de julho de 2010

O segredo: é no dente!!!!


“Sr.Clovis”¹ na primeira consulta queria apenas saber como estava sua “teimosa pressão”. Esse paciente entra na minha lista de pacientes bem humorados que tornam o meu atendimento um presente de Deus. E assim a cada dia eu amo mais a minha profissão!

Aferi a pressão do Sr Clovis que, na verdade, precisou apenas de mais um ajuste para chegar ao alvo desejado. Agendei seu retorno para verificar se o objetivo foi atingido. Após o tempo determinado Sr. Clovis compareceu com sua pontualidade britânica para sua segunda consulta:

- Então Sr. Clovis, usou a medicação conforme combinamos?
- Sim senhora!
- Então vamos conferir se conseguimos nosso objetivo.

Meta atingida! Sr. Clovis, se sentindo mais desinibido, desejava abordar outro assunto também:

- Sabe Doutora, com a pressão então ficou tudo tranquilo, né. Mas vou ser franco com a senhora.
- Pode falar, Sr Clovis.
- A senhora sabe que eu não sou mais um garotão. Já passei dos 60 anos. Mas ainda gosto de jogar uma bolinha com a patroa. A senhora me entende né?
- Sim senhor.

Nesse momento, eu abandonei a caneta, o prontuário e busquei uma posição mais confortável na cadeira. Senti que era hora de ser mais amiga do que médica.

- Então! Com esse negócio de idade... “juntado” com esse negócio de pressão e outras coisas que agente vai carregando ai com o passar das primaveras. Sabe, né?
- Sei sim senhor.
- Então! Fica difícil bater bolinha ao natural. De ser feliz! De agradar a velhinha lá de casa. A senhora entende Doutora?
- Entendo sim senhor.
- Como minha grana é curta...eu não consigo comprar o “azulzinho” ². Então, resolvi comprar o “genérico lá da terra das muambas". Tem um rapaz que vende lá onde eu trabalho. O que a senhora acha disso?
- Olha esse “genérico”³ não tem registro na ANVISA. Ou seja, além das implicações legais que o senhor já deve ter ouvido falar por ai... existe também o fato de ninguém garantir o que contem no comprimido, a qualidade do mesmo. E as conseqüências que o uso pode provocar no organismo.
- Sei. Olha Doutora. Eu não entendo esse negócio de ANVISA não viu. Mas a única coisa que eu sei é que ele funciona que é uma beleza!!!! E tem um segredo!
- Qual o segredo?
- Partir o comprimido ao meio para tomar. Mas não é com a mão ou com a faca não! È assim ó: no dente! Assim garante o produto!!!! E a felicidade é geral!!

Rimos bastante e continuamos as explicações sobre o tal “genérico”.


OBS:
¹ Lembrando: A identidade de nenhum paciente é revelada por questões de ética profissional (todos os nomes são alterados).
² Medicamento para disfunção erétil. Mesmo o mundo sabendo o nome comercial ® do “ azulzinho” eu não vou citar aqui...hehhehe. Afinal, eles já estão ricos demais. Não precisam da minha propaganda.
³ Usei essa expressão “genérico” para evitar o uso do nome real da medicação que o paciente desejou fazer referência. Não é o que está sendo comercializado no Brasil após o vencimento da patente do Azulzinho nao....é outrooo!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Eles balançam...


Hoje atendi uma jovem senhora super simpática. Adoro receber pacientes bem humorados. Assim o meu dia fica mais ameno.

Era um caso de Litíase Renal bilateral (“pedra nos rins). Um quadro recorrente, com cirurgia prévia e já algumas complicações em evidências. Mas mesmo assim “Dona Márcia” mantinha seu bom humor. Fez uma pergunta:

- Doutora, rim mexe?
- Não, Dona Márcia.

Ela me lançou um olhar de indignação. E continuou:

- Olha, Doutora....os meus mexem sim! Eles balançam!

Resolvi entender o que ela estava tentando me dizer.

- Mas balançam todos os dias?
- Não, às vezes.
- E quando balançam se colocar a mão consegue sentir?
- Não!
- Faz algum barulho?
- Não!

E sorrindo ela disse:
- Mas se fizesse acho que seria: Socorro! Socorro!


E continuou:
- Doutora, quando eu fiz a cirurgia no rim esquerdo o médico disse que eu tinha o rim “de veado”. Ai eu fiquei encabulada, sabe. Nunca ouvi falar que ninguém tinha rim “de veado”. No outro dia depois da cirurgia eu tive que perguntar sobre esse negócio de rim “de veado”.
- E o que ele disse?
- Disse que não era: “de veado”!!! O bicho, entende? Risos! Que era um pouco torto, desviado! Mas a senhora viu ai na ultrassonografia se ele ainda é desviado?

E aproveitando o clima descontraído eu respondi:
- Não é não! Acho que de tanto balançar...desentortou!

domingo, 4 de julho de 2010

Obrigada!



Hoje me deu uma vontade enorme de passar por aqui e agradecer a cada leitor desse blog simplesmente pela visita. A você que chega de mansinho... dá aquela espiadinha e só deixa o sinal da fumaça: muito obrigada! A você que sempre visita o blog...e na hora que vai comentar é abruptamente interrompido por algum motivo de força maior ou menor ai no aconchego do seu lar...e acaba não comentando: muito obrigada também! A você que é declaradamente rebelde com esse negócio de comentar, mas amaaaa ler as pérolas: muito obrigada também! A você que tem dedinhos compulsivos que digitam mais que a boca fala: muitoooo obrigada, adoroooo!!!!

Enfim.... o blog acabou de nascer... está engatinhando...seguindo o processo natural de crecimento e desenvolvimento e já me faz tão feliz! Desse jeito eu vou ser entrevistada pelo Jõ Soares mesmo!!!! Afinal meu Blog já é INTERNACIONAL!!! Podem conferir...visitantes do Canadá, EUA, Rússia....e de todos os cantinhos do nosso maravilhoso Brasil!!!!

Muito obrigada a todos.Sintam-se carinhosamente abraçados por mim!
Doutora.

sábado, 3 de julho de 2010

Lista de Espera


Essa história tinha tudo para virar um caso de policia, mas achei melhor transformá-la em uma pérola. Na verdade esse episódio ocorreu em 2009. Não pretendia dedicar um espaço no meu blog para contar coisas dessa natureza. Mas essa semana aconteceu o desfecho desse caso de uma forma tão surpreendente e inesperada por mim que eu acho que vai ser interessante contar como uma lição de vida...e também para mostrar que nem tudo são flores na nossa profissão. Afinal...toda flor tem seu espinho!

Bom, final de 2009 eu fui agredida por uma paciente. Já era quase o final do meu expediente e essa paciente entrou na minha sala gritando comigo dizendo que eu estava privilegiando pessoas e deixando o atendimento dela por ultimo só para prejudicá-la. Com toda calma eu tentei mostrar que havia uma lista no computador com a seqüência de atendimento por ordem de chegada e que essa ordem não poderia ser alterada por mim. Mas inconformada...foi aumentando o tom de voz e ficando cada vez mais agitada. Até que bateu as mãos na minha mesa, pegou todos os meus carimbos e arremessou contra minha cabeça, derrubou minha mesa no chão, veio na minha direção puxou meu jaleco e armou a mão para dar um murro....mas desistiu e saiu me xingando de “santa a rapadura”.

Todas as medidas judiciais foram tomadas, mas esse não é o foco da pérola.

Depois desse episódio eu desenvolvi um método para organizar meu atendimento. Eu já até comentei aqui no blog na Pérola “Um tapinha dói sim”. È uma lista com os nomes na ordem em que será realizado o atendimento...que fica colada na porta pelo lado de fora. Todos os dias eu faço esse ritual! Esse método deu certo, os pacientes ficam mais calmos, pois sabem exatamente sua posição na fila de espera.

Mas o motivo que me fez despertar o desejo de contar essa pérola foi que durante todos esses meses, todos os dias ao fazer essa lista eu procurava o nome da tal paciente que me agrediu. Isso mesmo... eu nunca me esqueci o nome dela!!!! Nome e sobrenome! Mesmo acreditando que a possibilidade dela voltar a consultar comigo era remota (na minha opinião)...eu observava todos os dias se o nome dela estava na lista!

E.... para minha surpresa (ruim...pq aprendi que nem toda surpresa nessa vida é boa) e espanto.... essa semana o nome da “Amy Winehouse ”estava na lista. Consultei os arquivos do computador para conferir com o dia da agressão: era ela! Fui até a recepção para reconhecer a “carinha” dela: positivo. Voltei para o consultório pensativa sobre qual conduta adotar: passar o caso para um colega? Atender a paciente e fazer que não lembrava de nada?

Deixei os policiais da unidade em alerta e comecei o atendimento do dia. Ela era a 14° paciente. Quando chegou o momento, respirei fundo e chamei! Notei que ela entrou armada, querendo descobrir se eu lembrava ou não do episódio. Fui profissional. Atendi com toda atenção que dedico a qualquer paciente. Nisso ela foi relaxando, se sentindo dona do pedaço. Pediu para aferir pressão, pediu para fazer o tal check up...mas nunca imaginava que eu já estava ali com a ficha completa dela! Acabou a consulta. E eu perguntei:

- Eu posso te ajudar em mais alguma coisa?
- Não.
- Então eu gostaria de te fazer uma pergunta. Você viu aquela lista lá fora com os nomes na ordem em que será realizado o atendimento?
-Sim.
-Você gostou dela?
- Sim.
- Então, eu hoje queria te agradecer por uma coisa. Por você ter me agredido ano passado!

Nesse momento eu queria que tivesse uma câmera naquele consultório, porque eu não me conformo de ter sido a única pessoa a ter visto a cara que ela fez!!!!! E prossegui:

- Te agradecer, porque foi depois da sua agressão que surgiu a minha idéia de criar essa lista de espera. E através dessa lista eu sou conhecida e recebo inúmeros elogios tanto dos meus pacientes quanto da direção dessa unidade de saúde. Eu queria te dizer muito obrigada.

Eu acho que ela não volta mais para mostrar os resultados dos exames. Mas se voltar espero que tenha pelo menos amadurecido um pouco com tudo isso.

OBS: A ilustração representa meu estado de espirito com o "the end". E também para deixar o ambiente mais light, porque essa pérola foi tensa, aff
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